Na revista VEJA, Ed. 2084 de 29 de outubro de 2008, Lya Luft escreveu sobre os trilhões em dinheiro que estão sendo despejados no mercado financeiro sob o pretexto de salvá-lo. Ela levanta a seguinte questão sobre os milhões de pessoas que morrem pela fome ao redor do mundo: “Por que a ninguém ocorreu inundá-los com essas torrentes de dinheiro, para que não morressem miseravelmente de fome e abandono, diante dos nossos olhos, exibidos por jornal, internet e televisão?”
          O pior disso tudo é que entre as dezenas de colunas e reportagens que li sobre a atual crise, essa foi a única que tocou nesse aspecto. Por que em um mundo onde milhões de pessoas morrem de fome ou vivem na mais completa inanição, o dinheiro que deveria ser usado para garantir sua sobrevivência é usado para salvar o mercado?
          É claro que eu sei das implicações de se deixar ruir o sistema financeiro e que uma quebra geral resultaria num agravamento dessa situação de miséria; o que estou questionando é essa lógica de se permitir que nos tornemos reféns desse sistema, com eles ainda nos vendendo a falácia de que o Governo deve deixá-los livres para agirem como quiserem. O Governo deve priorizar o bem estar social, o mercado prioriza o lucro a qualquer preço, essas prioridades não se distinguem simplesmente, elas rivalizam entre si.
          Essa situação em parte deriva do fato de que “com a globalização atual, deixaram-se de lado políticas sociais que amparavam, em passado recente, os menos favorecidos, sob o argumento de que os recursos sociais e os dinheiros públicos devem primeiramente ser utilizados para facilitar a incorporação dos países na onda globalitária” (SANTOS, 2000). Ou seja, sob o pretexto de se incorporar no mundo globalizado e de se precaver contra as crises inevitáveis do capitalismo os países acumulam reservas, entretanto, os países subdesenvolvidos fazem isso ao custo de deixar de atender às necessidades mais básicas de grande parcela de sua população, desviando de sua verdadeira missão.
          Milton Santos já vislumbrava esses aspectos quando disse que “uma outra globalização supõe uma mudança radical das condições atuais, de modo que a centralidade de todas as ações seja localizada no homem”. Hoje tudo gira ao redor do dinheiro ao ponto de vivermos em um sistema que privilegia o resgate de instituições financeiras, com reservas de trilhões de dólares, mas para se salvar vidas humanas nada parecido foi feito. Os Governos devem voltar a garantir o bem estar social de todos e empreender novas formas de diminuir as distorções que o atual mercado gera, a globalização deve se voltar para o desenvolvimento do homem e não para o puro e simples acúmulo de capital, sempre concentrado nas mãos de poucos.
          Seria o que podemos chamar de antropocentrismo político e econômico, talvez esse seja um passo inicial para mudar as coisas, enquanto ainda temos tempo.
Fabiano Guilherme de Mendonça
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